

O Clemente me chamou pra fazer um video-retrato com Ana Rovati. Num momento quis mostrar uma música nova, a Homens Machucados, e daí, na conversa, começamos a falar de fazer um disco. Ana tava registrando, daí, sabemos como tudo começou.
Homens machucados, de Luís Capucho
Por Leonardo Davino de Oliveira
Carlos Drummond de Andrade escreveu que “a poesia elide sujeito e objeto”. Desde que Luís Capucho lançou o livro Cinema Orly (1999) e, depois, quando lançou o disco Lua singela (2003) tem sido assim, sua verve de lírica underground, de fricção entre superfície e profundidade, a flor e a náusea vem sendo destacada pela crítica especializada. Na verdade, já antes, as letras de suas canções gravadas por Cássia Eller, Daúde, Pedro Luís, Marcos Sacramento, Ney Matogrosso mostram eus que transitam por lugares noturnos, onde desejos inconfessáveis se realizam.
Escrevendo sobre Poesia e História, Octávio Paz observou que “os ‘poetas malditos’ não são uma criação do romantismo: são o fruto de uma sociedade que expulsa aquilo que não pode assimilar. A poesia não ilumina nem diverte o burguês. Por isso ele desterra o poeta e faz dele um parasita ou um vagabundo”. Paz parece ouvir Luís. Diante da obra de Luís Capucho “estamos frente ao mais maldito dos malditos da canção brasileira”, como lemos em O Globo de 23/02/2011. Seja o escuro do quarto, seja o escuro do cinema de pegação, esses eus lançam luz sobre personas cotidianas que o bom mocismo da MPB prefere manter à margem.
No disco Homens machucados, cenário de prazer e risco, o Cinema Orly é um personagem que aparece já na segunda faixa. “Sujo”, “caldeirão”, “dos animais”, “dos imortais”, o cinema é lugar de ritual que abençoa e ferve o desejo: “no bafo do cinema eu me iludo / no mofo do cinema eu me afundo”. Lugar que “de terça a terça, de dez às dez / abre as portas pros fieis”. Aliás, a primeira faixa do disco parece dar sobrevida a certo “inseto moribundo” evocado de seu disco Poema maldito (2014). Afinal, se “a missão do poeta é restabelecer a palavra original, distorcida pelos sacerdotes e pelos filósofos”, como sugere Paz, as canções que Luís Capucho guardam sujeitos noturnos, profundos, machucados.
“Luís Capucho é uma voz no avesso da MPBoamoça”, escreveu Tárik de Souza, numa formulação precisa e justa para o dono de uma voz que não encontra par, nem no bom-mocinho da indústria cultural massificante e domesticadora, nem na tradição lírica mais costumeira. A performance vocal de Capucho tensiona elementos que deveriam estar no avesso do bordado-canção, esses elementos incomodam, estranham, ou seja, instauram o poético. Por isso, exige ouvidos livres, exige a renovação da concepção do gênero e do gênio cancional radiofônico.
Esse “peixe abissal”, tão bem filmografado por Rafael Saar (2023), em filme onde declama “sou um peixe profundo, para nós peixes profundos, como não somos capazes de nos agrupar como fazem os da superfície, o desejo acaba por nos lançar à clandestinidade”, aparece novamente em corpo e alma, timbre e dicção em Homens machucados, disco que confirma o impulso para o trânsito entre as profundezas. Sua lírica selvagem assina cada imagem que sua voz plasma na imaginação de quem ouve as novas canções – das distorções orgânicas e eletrônicas da primeira faixa ao verso final “eu não, eu não, te quero mais”.
“Camuflagem, camuflagem, camuflagem” (Camuflagem - luis capucho/tive martinez) a palavra é repetida à exaustão em tom de clamor e instinto de sobrevivência, num dos raros momentos em que a dicção de Capucho rompe com a passionalização característica de sua vocoperformance. Repetir é reiterar e negar. Não à toa logo em seguida ouvimos uma canção em que a masculinidade é apresentada sob vários pontos, concluindo que “a masculinidade é frágil”. A canção perspectiviza um tema caro aos debates políticos contemporâneos. Como um poeta de seu tempo, Capucho não foge à ordem do dia, mas ao seu modo, sem reducionismos teóricos.
“O indivíduo é uma construção e não dado inerente ao humano”, lemos no “Terceiro manifesto camp”, texto em que Denilson Lopes trata do desafio do sujeito contemporâneo para “articular suas máscaras em constante troca, seu eu mutante, sem se deixar dissolver no puro movimento, na velocidade, no mercado de imagens”. Lopes parece ouvir Luís. “Enquanto comportamento, o camp pode ser comparado à fechação, à atitude exagerada de certos homossexuais, ou simplesmente à afetação. Já enquanto questão estética, o camp estaria mais na esfera do brega assumido, sem culpas, tão presente nos exageros de muitos dos ícones da MPB, especialmente o culto a certas cantoras e seus fãs”. Isso nos ajuda a entender a cultura popular midiatizada brasileira desde, pelo menos, a Tropicália, no influxo da contracultura nos anos 1960. Pensar a “fechação”, a “estetização do social” enquanto categoria ético-estética brasileira é desafio também engendrado por Capucho.
“Aqui é meu inferno, meu inferno, meu inferno”, (Inferno – luís capucho/marcos sacramento) diz Luís noutra canção de Homens machucados. “Rabo”, “lugar” e “inferno” são palavras-chave e anáforas que atravessam a poética do disco justapondo prazer e risco de vida numa mesma clave cromática, sonora e vocal. O erotismo da beleza de Cristo na cruz aparece como desejo pelo corpo: “homens machucados eram mais bonitos pra mim”, ouvimos um memorialista – “eu era um menino quando...” – sujeito cancional afirmar mais adiante.
Sempre em primeira pessoa, o artista parece embaralhar biografemas às personas cancionais, afirmando que aqui há um corpo que canta. Lembremos, “a poesia elide sujeito e objeto”. O que ouço quando ouço Luís Capucho é que o texto das letras é atualizado pela voz, ou seja, na compatibilidade entre o que é dito e o modo de dizer. Mesmo mediatizada, a performance vocal e corporal do cantor pode ser sentida na materialidade da voz (suas rasuras e intensidades).
“Não há criação nem morte perante a poesia / Diante dela, a vida é um sol estático, / não aquece nem ilumina”, escreveu Drummond. É essa aridez frutífera o que ouço quando escuto Luís. Sua dicção se rebela contra essa indiferença, “essa coisa toda sem valia que eu guardo e esqueço”, canta. Se parece estranho evocar um poeta canônico para falar da poética de um à margem, é porque urge lembrar que a poesia é a única produção humana a resistir às seduções do capital, às artimanhas do poder. O Cristo cantado por Capucho cuida, cura, cobre. Eis o mistério das canções do disco Homens machucados: o impulso rude e cru de cuidar, curar, cobrir aquilo que se canta.
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Vocalize (luís capucho)
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Camuflagem (luís capucho/Tive Martinez)
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Cinema Orly (luís capucho)
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Homens Machucados (luís capucho)
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Inferno (luís capucho/ Marcos Sacramento)
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Tava na noite (luís capucho)
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A Masculinidade ( Kali C/luís capucho)
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Eu não te quero mais (luís capucho)
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O Amanhecer do Alexandre (luís capucho/Alexandre Magno)
Ficha técnica do Homens Machucados
Voz e violão- luís capucho
Baixo – Mari Romano
Guitarra – Vitor Wutzki
Bateria – Hudson Rabelo
Mixagem e masterização – Renato Cortez
Foto de capa – Ana Rovati
Produtor musical - Clemente
gravado no estúdio de Martin Scian em 14 de abril de 2018
Lançamento - +um Hits
Homens Machucados por luís capucho
(colher um disco no talo)
No ano 2000, quatro anos após um coma por neuro-toxoplasmose, decorrente de infecção por HIV, que me deixou sequelas motoras, depois de muita tentativa e erro, consegui montar, de novo, um primeiro acorde no braço do violão, era o Mi Maior. Nesse mesmo ano, também registrava, manuscrevendo num caderno escolar, meus exercícios diários de natação, por orientação da fisioterapeuta – manuscrever ajudaria a recompor a “sintonia fina’ dos movimentos perdida pela sequela neurológica.
Naquela época, de recuperação motora, era acompanhado também por uma fonoaudióloga, que orientava para que eu melhor movesse os músculos de engolir e de melhor produzir os sons vocais. A pouca motricidade do aparelho fonador havia me deixado com a voz mais grave e lenta, sem alcance das notas médias e altas. Fazia então vocalizes, para aumentar força, velocidade e o alcance delas e para que voltasse às melodias e canções. Esse exercício vocal de recomeço foi gravado de surpresa e à revelia e incluídos no disco. E é como começa o Homens Machucados:
1-Vocalize
zzzzzzzzzzzz
Embora, estivesse recomeçando a construção do mesmo mundo anterior de músicas – incluindo, agora, os livros, mas, tudo, literatura - meu território a desbravar estava n’outras condições, era outro pela maneira como eu tinha de explorar, com nova voz, novo braço de violão, mas também porque estava n’outro mundo mesmo, porque era o mundo depois dos anos dois mil, quer dizer, o mundo depois do fim.
Assim, esse disco, Homens Machucados, agora, já em 2025, comigo aos 63 anos, carrega, não exatamente, uma história de recuperação, mas uma história de desbravamento e conquista de território, o mesmo território em que caminhava e explorava desde rapazinho e, que por conta deste tropeço em minha biografia, como também das mudanças do mundo, está desbravado com novos limites e recursos, outros espaços a ocupar, enfim, um mundo não recuperado, mas novo, que tomou um rumo estético inesperado, rude, inflamado e escaldante, sobre o qual venho contando, cantando, melodia e texto, que desde sempre é tentativa e exploração, aprendizado.
Antes de conseguir remontar o Mi Maior e de registrar os exercícios de natação, publicados depois pela “é selo de língua” como Diário da Piscina (2017) e considerado um dos melhores livros lançados naquele ano pela revista 541, especializada em livros, também pela mesma orientação fisioterápica, impossibilitado de compor, já tinha manuscrito o Cinema Orly, que, em 1999, era publicado pela Ficções de Interludio e ganhou o prêmio arco-íris/2005. Além disso, o romance, em 2023, tornou-se peça encenada na cidade do Rio de Janeiro, assim como encabeçou a coleção Sete Chaves, de livros eróticos pela editora Carambaia, SP. Também, em 2024, começou a ser estudado para o cinema pelo N.E.C.A, grupo de pesquisa em cinema de BH.
O livro, cuja narrativa é intercalada com letras de suas canções, traz entre elas, uma que o nomeia e que, restaurada – antes, era dedilhada e com acordes mais elaborados – foi ensaiada com a banda para o disco. Ela vem em seguida aos vocalizes e inicia o disco de canções, propriamente:
2-Cinema Orly
(luís capucho)
O cinema Orly é sujo
No cinema Orly me lambuzo
O cinema Orly abençoa nosso amor
Ferve nossa alma no seu caldeirão
Ama-se a quantos quer o nosso amor
Ser o que se quer
No bafo do cinema eu me iludo
No mofo do cinema eu me afundo
No cinema Orly é humano o que era dos animais
É mundano o que era dos imortais
O cinema Orly
O cinema Orly
De terça a terça, de dez às dez
Abre a porta pra os fiéis
Seja uma igreja, seja um cinema
O Orly me beija
O Orly me beija.
A ideia do Homens Machucados é antiga, veio, em 2018, num encontro com Clemente e Ana Rovati para a feitura de um vídeo-retrato que divulgava a canção Poema Maldito (luís capucho/Tive Martinez) do álbum de mesmo nome, Poema Maldito (2014). Num momento, quis mostrar uma música nova, a Homens Machucados. A música fresca, limpa, na voz e violão, entre uma foto e outra, um take e outro, assim, no preto e branco, só no esqueleto, estimulou a conversa e combinamos de fazer um disco a partir dela. Escolhemos entre outras músicas minhas, as que fariam parte do repertório, montamos uma banda com baixo, bateria e guitarra e, depois de ensaios, gravamos ao vivo, tudo de uma vez só. Fizemos o registro disso numa tarde, num estúdio rock de Botafogo. Clemente produziu.
3- Homens Machucados
(luís capucho)
Eu era um menino quando homens machucados
Eram mais bonitos pra mim
Um homem machucado de tudo perfeito
O peito ferido, belezas escorrendo
Dos olhos dele, do corpo dele
No pescoço, pelos flancos, no seu centro
Dentro dele, pernas abaixo
Beleza assim de cristo na cruz
Os braços abertos, sagrado coração
Cabelos sangrentos no vento frio
Chagas abertas, coroa de espinhos
Sangue vermelho, no céu azul
Homens machucados eram mais bonitos pra mim
Lindeza de jesus que veio me salvar
Que vai morrer por mim
Homens machucados eram mais bonitos pra mim
Lindeza de jesus que veio me salvar
Que vai morrer por mim.
A quarta das canções escolhidas, A Masculinidade (luís capucho/Kali C), como Cinema Orly e como Homens Machucados é outra canção de amor. É a observação dos monitores e rapazes companheiros de raia, na piscina, para as aulas de natação, pelo que minha fisioterapia havia sido trocada.
Tinha pedido a parceira Kali C, se poderia musicar a enumeração de adjetivos sobre eles, dentro e no entorno da piscina, que eu tinha feito. Alguns dias, já com a letra, ela me mostrou um esboço da melodia, que depois, sem importância, com o tempo, esqueceu. Eu gostei tanto do que ela tinha mostrado que insisti para que se lembrasse. Fiquei pedindo outra e outra vez. Então, meses passados, ela devolveu um esboço do que tinha feito antes. Eu arrematei o seu alinhavo e ficou pronta. Essa música, A Masculinidade, está no disco Quimera, de Lucas Fidelis (Porangareté/2024) e com arranjo de Vovô Bebê, no filme de Rafael Saar (Peixe Abissal/2024), que versa sobre meu universo artístico:
4- A Masculinidade
(luís capucho)
A masculinidade é doce
A masculinidade é bela
A masculinidade é forte, é gentil
A masculinidade é de veludo
A masculinidade é grande
A masculinidade é grossa
A masculinidade é boa
A masculinidade é azul e cheirosa
A masculinidade é cega
A masculinidade é soberba
A masculinidade é mesmo como a flor, é frágil
A masculinidade é de veludo
A masculinidade é cega
A masculinidade é fogo
A masculinidade não enxerga
A masculinidade não se vê
A masculinidade é grande
A masculinidade é grossa
A masculinidade é boa
A masculinidade é azul
Voltando ao primeiro acorde, assim que consegui fazer o Mi Maior, do qual tirava o som espancando as cordas do violão com a mão direita, pedi para que meus parceiros da época me dessem letras fáceis, possíveis de terem o sentido traduzido em melodia a partir de apenas esse acorde.
Marcos Sacramento me deu a letra de Inferno.
É uma letra com uma ideia de que o disco, Homens Machucados, ao pensarmos a capa, tirou como centro lúdico, espiritual, folclórico, como ilustração, que é a ideia de ter um rabo-espírito, como contido no primeiro capítulo da narrativa do meu livro de estréia, Cinema Orly, de quando a sequela ainda não me permitia o violão:
Quanto a mim, não contava com o fato de ficar claudicando, impossibilitado de tocar violão e com a voz do homem- elefante. De todo modo, uma antiga colega de escola outro dia me disse que, depois que fiquei assim, ganhei espírito. Eu que duvidava de ter espírito, que me perguntava se eram todos os da espécie humana que tinham um, como temos os braços, tenho agora um espírito, como um rim, sem senti-lo, assim como quem tivesse um rabo.
(Cinema Orly 1ªed/pg 21)
Assim, a próxima canção, a Inferno, se alinhava, enrabichada com o livro Cinema Orly, com a primeira música do álbum, de quando após o coma, os remédios, a fonoaudiologia, a fisioterapia, e dando uma virada para minha nova condição, versão de artista, recomecei a compor:
5- Inferno
(luís capucho/marcos sacramento)
Aqui é meu inferno
Seta no rabo
Aqui é meu inferno
Rabo arrastando
Aqui é meu inferno
Pobre diabo
Meu rabo, meu lugar, meu inferno
Pobre rabo, pobre inferno, pobre de mim
Pa pa pa pa pa pa pa pa....
Pobre rabo.
Como disse mais acima, Tive Martinez, parceiro na música-título do meu quarto álbum, Poema Maldito, divide comigo a parceria da sexta canção desse Homens Machucados, com seu poema Camuflagem, poema este no livro “El amor o su contrario”. Enquanto penso me expandir, como já dito, que me expando em território novo, a partir do que me ficou, do que tenho – não há recuperação - Tive contribui no disco com uma volta, com a imagem de regresso a uma memória de menino, e que no terreno da literatura, propõe cura.
Ele disse sobre seu poema:
“Escrevi Camuflagem para fixar uma memória do menino introvertido que experimentava a vida através da literatura, quando, num momento de revelação quase mística, o mundo real se fundiu com o mundo dos livros e tudo fez sentido. Compreendo a leitura do poema sob a forma de uma oração que me permite reviver aquele instante de iluminação passageira. Agora, com o poema transformado em canção, o Luís Capucho conseguiu que o seu efeito curativo perdurasse muito mais tempo em mim.”
6- Camuflagem
( luís capucho/ tive martinez)
Leio na biblioteca que os insetos do amazonas
Adotam a cor do seu entorno pra se ocultar dos predadores
Estou satisfeito por aprender algo novo
Ainda que não possa evitar a melancolia de saber
Que nunca vou à selva
Perto de casa crescem umas margaridas silvestres
É meu costume
Colher uma flor no talo
Mas no momento de arrancá-la me parece observar um movimento
Uma pequena aranha amarela se faz visível na borda de uma pétala
E de imediato volta a se esconder
Com o arroubo de um menino em sua primeira comunhão
Muito no íntimo digo:
camuflagem!
Essa próxima é para os que estão apenas com o dinheiro da passagem dentro do ônibus, mais nada.
7-Tava na noite
(luís capucho)
Tava na noite sem dinheiro, não dava pra fazer qualquer coisa, mas eu não ía voltar pra casa pra ficar triste, nem visitar nenhum amigo.
Então, eu decidi pegar um ônibus pra ver a cidade andar mais rápida naquela hora da noite
Os passageiros me seduziam com suas roupas de sair, mas eu não conquistava ninguém como se faz normalmente sem dinheiro.
A casa onde eu morava antigamente passou
Eu vi pela janela a hora que você entrou no ônibus.
Eu pensei: que gracinha!
Eu não te quero mais, oitava faixa do disco, canção de lirismo singelo, é uma música sobre guardados, guardados pelos cantos da casa, coisas que não vivem mais e que, ao mesmo tempo, fazem eco à ideia de exploração de território novo, embora para isso, num oroboros, volte-se para dentro do escuro apagado das gavetas, de coisas abandonadas, minúcias, registros que não abrem imagem alguma, que não importam mais. Já deu, já foi, já é, vamos em frente!
8- Eu não te quero mais
(luís capucho)
Eu não te quero mais no meio das coisas sem lembranças, vidros vazios,
Barbeadores usados, canetas sem tinta, você não tem mais importância no meio das coisas velhas
Barbantes embolados nas gavetas, textos que não se entende a letra,
Um bat-bag, traças, pedrinhas, fios de cabelo, disso não lembro, eu não te quero,
Isso não quero mais
Eu não me queixo aos ratos nos subterrâneos da cidade
Eu não me queixo às baratas vivas nos encanamentos de noite, nos ralos
Isso não digo, isso não faço, esse monte de coisas sem memória, pedaços de vela, papeis rasgados,
santinhos, palitos, endereços, esse monte de coisas sem valia
Que eu guardo e esqueço
Eu não te quero mais.
Fechando o disco, uma terceira faixa em parceria, dessa vez, com Alexandre Magno, poeta de Franca, interior de SP. É uma música messiânica, para nosso planeta em torno ou embaixo do sol. Para a Terra azul e, por consequência, a humanidade ameaçada, para cada um de nossos corpos, hoje, ameaçado para a existência, e no universo lítero-musical em que estou, do álbum Homens Machucados, O amanhecer do Alexandre soa alvissareiro, para os anos 20 desse século, como nos anos 70 do século passado soou “Amanhã” (Guilherme Arantes), ou nos 80, a “Canção do novo mundo” (Beto Guedes/ Ronaldo Bastos) isso por que, de novo, estamos no contexto de um disco e da música popular.
Ele diz:
Essa letra eu escrevi anos atrás para o Luís.
Queria oferecer ao Capucho, algo diferente das suas canções autorais ou de parceria. Mas que, ao mesmo tempo, conversasse com a dimensão dessa pessoa com capuz religioso e uma expressão cultural de tanta gente da cidade que ele adotou para viver.
E penso que, realmente, à sua vez, ele oferece a canção ao público em momento propício. Esperemos, ardentemente, que amanheça.
9- O amanhecer do Alexandre
(luís capucho/alexandre magno)
O coral de Oxalá desponta nas regiões tenebrosas
Onde seres desconhecidos e abissais lutam em combates mortais
A cor alva do cavalo de Ogum que percorre os cinco mundos devastados
Os cinco mundos humilhados um a um, aliviando a fome a e miséria
Brilha sobre nossas cabeças, os filhos do sul, do sol, da sal
Vem pra iluminar nossos olhos que sondam insones nas regiões abismais
E seu calor eterno como as mãos de Cristo e pura como os olhos vivos de Cristo
Que vem aliviar a fome dos cinco mundos consumidos
Que vem animar o mundo com todos os sons
Que vem distribuir e compartilhar os dons
Que vem aliviar a desesperada espécie humana
Pegá-la ampará-la e levá-la pela mão.
Nã nã nã nã nã...
Nã nã nã nã nã...
Nã nã nã nã nã...
Nã nã nã nã nã...



