

11 – nadar
“A Alemanha declarou guerra à Rússia.– À tarde, natação.”¹, anotou Kafka em seu diário no dia 2 de agosto de 1914, do que me lembrei logo nas primeiras semanas do ano, quando desenvolvi um novo hábito: o de nadar.
Em menos de dez palavras, trata-se da síntese perfeita da forma-diário. Nessa anotação veloz, vemos a tensão entre as forças do mundo exterior, que não podemos controlar, e o estado da experiência mental que, neste caso...
Diário da piscina traz anotações feitas durante aulas de natação que lhe foram recomendadas como fisioterapia.



Diário da Piscina

O Diário de Piscina veio pela É selo de língua – editora É/2017.
E revela o funcionamento cotidiano de minhas aulas de natação para recuperação de sequelas motoras ocasionadas por neurotoxoplasmose, adquirida por HIV. Os registros diários vão de julho do ano 2000 a abril de 2001. Ao irmos no ritmo da leitura, na repetição do cotidiano de quem aprende a nadar, a piscina se transforma em rio, córrego, lagoa, mar e é como se nadássemos juntos. A Isabel disse que é como se reaprendêssemos o nado, o andar, o ler e o escrever. A beleza dos parágrafos tocados de simplicidade e amor. A relação distante e, ao mesmo tempo, funda dos que frequentam socialmente a piscina, cada qual no impulso de seu próprio corpo navegando, cortando a água.
Pra mim, mais que uma estória, “Diário da Piscina” é uma situação, um lugar de trânsito e, ao mesmo tempo, de permanência. Os nomes todos saídos da Roma Antiga.
O mote do livro veio de “Era Nova”, uma das músicas de Gilberto Gil:
“Falam tanto de uma nova era, quase esquecem do eterno é.”



